25/11/2025

Como velhos gargalos corroem a riqueza do agro mesmo em ano de supersafra

Como velhos gargalos corroem a riqueza do agro mesmo em ano de supersafra

Da redação com informações do Compre Rural

O Brasil caminha para mais um marco histórico na produção agrícola. As projeções mais recentes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para o ciclo 2025/26 indicam uma supersafra estimada em 354,8 milhões de toneladas de grãos. O volume reforça o papel do país como potência global na produção de alimentos, mas evidencia uma contradição já conhecida do setor: a ampliação da produção não se traduz, necessariamente, em maior rentabilidade para o produtor.

Mesmo diante de índices recordes, a “erosão estrutural da renda” permanece como um desafio central. Problemas históricos de infraestrutura, logística e custos operacionais funcionam como entraves permanentes ao desempenho econômico das propriedades rurais.

Armazenagem: o principal gargalo do agronegócio brasileiro

O déficit de armazenagem permanece como o problema mais crítico do setor. A capacidade estática disponível no país é insuficiente para suportar o volume produzido, criando uma pressão de venda imediata durante a colheita.

Dados da Conab e da Associação Brasileira da Indústria de Armazenagem (ABIA) mostram que, em 2025, o déficit já ultrapassa 125 milhões de toneladas. Enquanto a FAO recomenda que a capacidade estática seja equivalente a 120% da produção anual, o Brasil opera com aproximadamente 65% da necessidade.

Sem estruturas de armazenagem na fazenda, o produtor perde o poder de escalonar as vendas ao longo do ano e é forçado a comercializar a safra exatamente no momento de maior oferta, quando os preços registram forte queda. Estimativas apontam que produtores sem armazenagem deixam de capturar entre R$ 10 e R$ 15 por saca apenas pela impossibilidade de aguardar a recuperação do mercado na entressafra.

Logística rodoviária e o peso do “Custo Brasil”

A limitação da armazenagem amplia a dependência do transporte rodoviário, que continua responsável por mais de 60% do escoamento da safra nacional. Em anos de supersafra, a pressão sobre a demanda por caminhões eleva o preço do frete, sobretudo em regiões distantes dos portos, como o Médio-Norte de Mato Grosso.

Estudos da ESALQ-LOG (USP) indicam que o frete pode consumir entre 25% e 30% da receita bruta da saca de soja nessas regiões. A isso se somam perdas por ineficiências estruturais, como rodovias deterioradas, filas nos portos e custos de demurrage, que acabam descontados do produtor. O desperdício de grãos durante o transporte também representa um prejuízo significativo.

Custo de produção, crédito e juros elevados

Além dos entraves logísticos, os custos de produção permanecem em patamares elevados. O IMEA (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária) aponta que, mesmo com a estabilização parcial dos fertilizantes, os custos financeiros aumentaram devido à manutenção da taxa Selic em níveis restritivos.

O crédito rural, tanto para custeio quanto para investimento, ficou mais caro, encarecendo operações e deteriorando a relação de troca. Na prática, o produtor colhe mais, mas precisa de mais sacas para compensar os mesmos gastos com maquinário, insumos e financiamento.

Caminhos para mitigar os gargalos

Enquanto obras estruturais de longo prazo avançam lentamente, especialistas destacam estratégias privadas e cooperativas como fundamentais para enfrentar os gargalos que limitam a competitividade:

• Armazenagem própria (on farm)

Considerada a medida mais eficaz para blindar a renda, a construção de silos permite ao produtor escolher o momento de venda e reduzir perdas comerciais. Programas como o PCA (Programa para Construção e Ampliação de Armazéns) seguem sendo essenciais.

• Gestão de risco e ferramentas de hedge

Travas de preço em bolsas como B3 e CME, além de contratos de barter, têm papel fundamental em garantir margens mínimas de segurança, independentemente da volatilidade do mercado.

• Cooperativas e condomínios de armazenagem

Para pequenos e médios produtores, a união em estruturas coletivas dilui custos e amplia a capacidade de armazenagem e logística, reduzindo a exposição aos momentos críticos da safra.

A supersafra de 2025/26 confirma a força tecnológica e produtiva do agronegócio brasileiro, mas reforça que a infraestrutura e a logística ainda determinam o limite do crescimento econômico no campo. Sem avanços estruturais, os gargalos seguirão corroendo ganhos e comprometendo a competitividade do setor.

 

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