22/12/2025

Da safrinha ao bilhão: como o etanol de milho virou motor de um novo meganegócio no Brasil

Da safrinha ao bilhão: como o etanol de milho virou motor de um novo meganegócio no Brasil

Da redação com informações do Compre Rural

O etanol de milho deixou de ser uma alternativa marginal no agro brasileiro para se consolidar como um dos segmentos mais dinâmicos da bioenergia nacional. Com movimentação anual estimada em R$ 31 bilhões, o setor ganhou protagonismo, atrai investimentos bilionários, impulsiona a industrialização do campo e já mira uma nova fronteira: o abastecimento do transporte marítimo global.

O que começou como um aproveitamento da chamada “safrinha da soja” transformou-se, em pouco mais de uma década, em um pilar estratégico da transição energética e da agregação de valor à produção de grãos no país.

De cultura complementar a protagonista energético

Durante décadas, o milho foi tratado como cultura secundária, ocupando janelas deixadas pela soja. A produção de etanol a partir do grão, inspirada no modelo norte-americano, era vista com cautela em um país historicamente dominado pelo etanol de cana-de-açúcar.

Esse cenário começou a mudar a partir de 2017, quando a expansão da cana encontrou limites e a demanda por combustíveis renováveis ganhou força. O etanol de milho avançou rapidamente, especialmente no Centro-Oeste, região com grande disponibilidade de matéria-prima e logística favorável. Mais recentemente, o movimento se estendeu ao Matopiba e ao Nordeste, áreas com alto consumo de combustíveis para veículos flex.

Industrialização acelerada e investimentos bilionários

O Brasil conta atualmente com 25 biorrefinarias de etanol de milho em operação. Outras 16 unidades já foram autorizadas e mais 16 projetos estão em fase de planejamento. Cada planta exige investimentos que podem chegar a R$ 2 bilhões.

Segundo a União Nacional do Etanol de Milho (Unem), o setor deve receber cerca de R$ 40 bilhões em novos aportes ao longo da próxima década. O reflexo disso aparece na matriz energética: a participação do etanol de milho saltou de 2% em 2019 para 23,6% em 2024.

A produção anual já alcança 10 bilhões de litros, com projeção de dobrar até 2034, igualando-se ao volume atualmente produzido pelo etanol de cana-de-açúcar.

Subprodutos ganham protagonismo e fortalecem a cadeia

Além do combustível, o etanol de milho impulsionou outros mercados estratégicos por meio de seus subprodutos. O DDGS (grãos secos de destilaria com solúveis), com alto teor de proteína, gordura e fibras, tornou-se um insumo relevante para a nutrição animal, especialmente em confinamentos bovinos. Seu uso contribui para o aumento da produtividade pecuária e para a liberação de áreas de pastagem destinadas ao cultivo de grãos.

Outro destaque é o óleo de milho, que ganhou espaço não apenas na alimentação, mas também como matéria-prima para combustíveis renováveis avançados, como o SAF (combustível sustentável de aviação) e o HVO (óleo vegetal hidrotratado), considerados essenciais na transição energética global.

As “Big Corns” e a consolidação do setor

Inspiradas no conceito das Big Techs, surgiram as chamadas “Big Corns”, empresas que lideram a transformação do milho em um ativo energético e industrial.

A Inpasa, fundada no Paraguai em 2008 e presente no Brasil desde 2019, é hoje a maior produtora de etanol da América do Sul e a segunda maior do mundo. Com produção anual de 3,7 bilhões de litros, registrou receita de R$ 13,6 bilhões em 2024. Sua unidade em Sinop (MT) é considerada a maior usina de etanol do planeta, com capacidade de 2 bilhões de litros por ano.

A FS (Fueling Sustainability), primeira empresa 100% dedicada ao etanol de milho no Brasil, opera três usinas em Mato Grosso, fatura R$ 10,7 bilhões e ocupa a terceira posição no ranking nacional, atrás apenas da Inpasa e da Raízen.

Já a Usimat ganhou destaque ao apostar em uma planta flex, capaz de alternar entre cana e milho. A estratégia garantiu flexibilidade operacional e tornou-se referência de eficiência no setor.

Petrobras reavalia participação no segmento

O crescimento acelerado do etanol de milho reacendeu o interesse da Petrobras, que deixou o segmento em 2018. A estatal avalia retornar por meio de joint ventures com participação minoritária e negociações envolvendo grandes players do mercado.

Especialistas destacam que a escala alcançada por algumas empresas é inédita no país. Uma única planta da Inpasa, por exemplo, equivale à produção de oito a nove usinas médias de etanol de cana.

Do campo ao oceano: etanol como combustível marítimo

O próximo grande salto do setor pode ocorrer fora das estradas. O etanol surge como alternativa para o transporte marítimo, na forma de biobunker. O mercado naval global conta com mais de 30 mil navios cargueiros, muitos deles com tanques que chegam a 1 milhão de litros.

A demanda potencial é estimada em até 400 bilhões de litros de etanol por ano, volume muito superior à produção mundial atual. Esse cenário abre uma nova fronteira de exportação e posiciona o Brasil como fornecedor estratégico de energia renovável.

A Inpasa já se movimenta nesse sentido, com planos de refino próprio, escritórios na Europa e novos investimentos industriais. Estão em construção plantas em Luís Eduardo Magalhães (BA) e Rio Verde (GO), que juntas devem ultrapassar 1,4 bilhão de litros de etanol por ano, além de quase 750 mil toneladas de DDGS e produção de óleo vegetal voltado ao setor de SAF.

Um novo ciclo para o agro brasileiro

Com ganhos de produtividade, forte industrialização, diversificação de receitas e crescente inserção internacional, o etanol de milho inaugura um novo ciclo de desenvolvimento para o agro brasileiro. Em um cenário global que busca reduzir a dependência de combustíveis fósseis, o setor se consolida como um dos principais vetores de inovação, sustentabilidade e geração de riqueza no país.

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