Há 10 anos morria o “Rei da Soja”: o homem que transformou o Cerrado no celeiro do mundo
Há 10 anos morria o “Rei da Soja”: o homem que transformou o Cerrado no celeiro do mundo
Da redação com informações do Compre Rural
Visionário, ousado e polêmico. Assim foi Olacyr de Moraes, o empresário que ficou conhecido como o “Rei da Soja” e que ajudou a transformar o Centro-Oeste brasileiro na maior fronteira agrícola do planeta.
O ano de 2025 marca uma década de sua morte, mas o impacto de suas ideias continua vivo no agronegócio nacional.
De vendedor de máquinas a bilionário da soja
Nascido em 1931, em Itápolis (SP), filho de imigrantes libaneses, Olacyr começou cedo no mundo dos negócios. Ajudava o pai a vender máquinas de costura e, aos 19 anos, fundou uma pequena transportadora familiar. Poucos anos depois, criava a Constran (Construção e Transportes Ltda.), empresa que se tornaria uma das maiores empreiteiras do país, com obras em rodovias, pontes, hidrelétricas e até nos primeiros trechos do Metrô de São Paulo.
Durante o governo de Juscelino Kubitschek e o auge do “milagre econômico”, a Constran prosperou e abriu o caminho para o império que mudaria o destino do Cerrado brasileiro.
O nascimento do “Rei da Soja”
Nos anos 1970, o Brasil buscava expandir a produção de alimentos e ocupar o Cerrado. A oportunidade surgiu com a crise da soja nos Estados Unidos, que elevou os preços internacionais.
Olacyr apostou alto: criou a Itamarati Agropecuária S.A., comprou 50 mil hectares no Mato Grosso e iniciou o cultivo de soja com tecnologia de ponta — máquinas modernas e sementes importadas.
Com o apoio da Embrapa e de pesquisadores como Johanna Döbereiner, participou do desenvolvimento de cultivares adaptadas ao solo e ao clima tropical, abrindo as portas para o que viria a ser a revolução agrícola do Cerrado.
Em poucos anos, fundou a Fazenda Itamarati Norte, com 110 mil hectares, e ergueu um verdadeiro complexo agroindustrial, com usinas, pedreiras e até vilas completas para funcionários.
Na década de 1980, Olacyr era o maior produtor individual de soja do mundo, dono de uma fortuna superior a US$ 1,2 bilhão e presença constante na lista de bilionários da Forbes.
O sonho da Ferronorte e o colapso
Para reduzir custos logísticos e escoar melhor a produção, Olacyr lançou seu projeto mais ambicioso: a Ferronorte, ferrovia que ligaria o Cerrado ao Porto de Santos (SP).
Investiu cerca de US$ 200 milhões do próprio bolso e apostou que o governo seria parceiro no empreendimento.
Mas o sonho virou pesadelo. Problemas políticos e burocráticos atrasaram a conclusão da obra por anos. Sem a ferrovia pronta, o escoamento da soja ficou comprometido e as dívidas se multiplicaram.
O império começou a ruir: Olacyr perdeu o controle da Constran, do Banco Itamarati e de suas fazendas.
A Fazenda Itamarati, símbolo de seu sucesso, foi comprada pelo Incra e transformada no maior assentamento agrícola do país, abrigando mais de 17 mil famílias — um desfecho irônico para quem sempre acreditou no agronegócio como motor do progresso.
Os últimos anos
Mesmo após o colapso financeiro, Olacyr tentou se reinventar. Criou a Itaoeste Mineração, que descobriu jazidas de tálio na Bahia, mas o projeto nunca saiu do papel.
Sem o mesmo prestígio e enfrentando problemas de saúde, ele faleceu em 2015, aos 84 anos, vítima de câncer no pâncreas. Em vida, dizia ser “um homem rico, mas sem dinheiro”.
Um legado que ultrapassa gerações
Apesar das dívidas, Olacyr de Moraes deixou um legado inquestionável.
Sua visão pioneira impulsionou o avanço agrícola do Centro-Oeste, hoje responsável por quase metade da produção de grãos do Brasil e por 29% do PIB do agronegócio nacional, segundo a CNA e o Cepea.
O ex-ministro e produtor Blairo Maggi, que comprou a Fazenda Itamarati Norte em 2002, resumiu seu papel histórico:
“Olacyr foi um grande visionário. Acreditou no Cerrado quando ninguém acreditava.”
Mais do que um império de soja, ele deixou um exemplo de ousadia e inovação — provando que o interior do Brasil podia se tornar o coração de uma economia globalizada.